Friday, February 5, 2010

Dia 8 - Eu e Nenê, Nenê e eu


Pela primeira vez tivemos a manhã livre no motorhome. Livre é modo de dizer, já que havia mil coisas a resolver. Transferir a conta de luz, marcar a prova de direção, encher a caixa d'água do RV, fazer almoço, decupar as primeiras fitas. Foi pouco tempo pra tudo isso, mas valeu a pena passar o dia "em casa", principalmente agora que descobrimos que a semana que vem será de hotel em hotel. Teremos que deixar a casa, feito caramujo na muda, pra que ela seja envelopada com o logotipo do programa e da tv.

Mas o bacana do dia não foi isso. A foto aí do lado não é motagem nem representa duas espécies diferentes. Somos ambos humanos e brasileiros. Mas quem foi o infeliz que resolveu chamar esta criatura de Nenê? Fiquei me sentindo... sei lá... um feto!

Foi muito bacana a conversa com o pivô dos Nuggets, que me haviam dito ser tímido, mas estava super à vontade, contando histórias de imigrantes e revelando que logo que chegou aqui chorava noites a fio com saudade de casa. Me senti ótima! Se esse marmanjo de 2,11m e sapato 50 pode chorar, o que dizer de uma mocinha fofa feito eu?

Legal também foi o jogo. Estávamos na casa dos Lakers, o Staples Center, que ficou famoso por ter sediado o velório e os últimos ensaios de Michael Jackson. Hoje torcemos feito loucos pelo time de Denver, empurramos Nenê até onde deu, apesar de ele ter sido expulso depois da sexta falta, e vimos o time visitante sair vencedor. Uma noite divertida e grandiosa, com o perdão do trocadilho.

PS: Até na volta pra casa, às 11 da noite, tem engarrafamento em Los Angeles. Quem aguenta isso?

Dia 7 - Berma é a...

Hoje acordamos cedo e fomos conhecer por dentro a estrutura da sociedade americana. E assim vamos conhecendo cada vez melhor um ao outro. Fomos, eu e Chico, tirar a carteira de motorista americana!

Lá chegando, por milagre do destino, me aparece um email no celular avisando que o Social Security do Chico estava pronto. Explico. O Social é o número que mostra que o governo te reconhece como alguém aqui nos Estados Unidos. Sem ele, fica complicado tirar carteira, alugar apartamento, plano de saúde, tudo é mais difícil. A gente ia tentar tirar a do Chico enquanto o número não chegava, mas \ele chegou justo quando a gente estava preenchendo o formulário. Tudo certo, um problema a menos.

Só não contávamos com a burocracia americana. Sei lá por que raios eles entenderam que meu nome era Mila Burnsnascimento, como se meus dois sobrenomes se fundissem em um. Disseram que no meu passaporte estava assim e que no meu social eu aparecia como Mila Burns Nascimento, então eu não poderia tirar a carteira. A solução? Ir até o Social e trocar de nome. Daí eu passaria a ser Mila Burnsnascimento e tudo certo. E como convencer a moça de que esse nunca havia sido meu nome e que isso desencadearia uma crise familar sem precedentes? Misturar escoceses e portugueses assim, sem mais nem menos? Whisky com pastel de santa clara? Bem, o jeito foi uma chefe bem boazinha aparecer e dizer que ia deixar eu tirar a carteira, mas colocaria a observação de que eu tinha dois nomes... rsrsrsrs... Melhor não discutir.

Depois do exame de vista e de tirar uma foto, fomos para o teste escrito, com três chances de passar. 36 perguntas e só poderíamos cometer seis erros. Errei sete e Chico, que não tinha estudado nadica, 11.

Saímos da sala, estudamos mais um pouquinho e voltamos para tentar de novo. Aí vem aquela parte em que disse que estamos nos conhecendo melhor. Pedi a prova em inglês e o marrento do Chico, que acabou de chegar e já quer sentar na janelinha, perguntou: você vai fazer em inglês ou português? Eu estava há horas tentando convencê-lo a faezr em português e achei que havia conseguido, mas quando ouvi a pergunta, pensei: se eu disser que vou fazer em ingl6es, o metido vai pedir igual. Fingi que não ouvi e segui para a minha mesa, para fazer o teste. Chico, desolado, pediu a prova em português. Passamos os dois! E no final, confessei que havia fingido não ouvir a pergunta e ele admitiu que seu dissesse que tinha feito em inglês, também faria. Muito folgado! Muito masculino isso!

Voltamos felizes, com permit na mão e morrendo de rir da história. Ah! E voltamos também com uma dúvida! O que seria berma e camiao? É que na prova do Chico, o portguês não era á essas coisas, então além de chamarem ônibus de autobus, tinham umas palavrinhas bem esquisitas... Évelin, ajuda aí!!!

Wednesday, February 3, 2010

Dia 6


Los Angeles é a cidade das batalhas. O dia começa com uma gata, a Dindi, fazendo escândalo. Ela queria entrar de qualquer maneira no quarto. Moveu o mundo - e as grandes - e a danada conseguiu. Depois de acordada pela gata, fui estrear a lavanderia do camp ground. Enquanto isso, Chico arrumava a casa. Fazer a manutenção do RV não é brincadeira. Enche de água, lava louça (não pode deixar acumular, senão tudo vira uma bagunça) e por aí vai.

Saímos para tentar buscar o cartão do banco que até hoje não chegou, passamos na produtora para um conversinha rápida, seguimos para um almoço mais rápido ainda e lá fomos encontrar Milena em Beverly Hills.

O lugar é mesmo bem charmoso. Vimos o hotel onde foi gravado "Uma linda mulher" e uma porção de lojas de grife. O motivo de termos encontrado Milena lá é que ela é uma ex-modelo, entã tem tudo a ver com esse universo. Aliás, depois de quase uma semana em Los Angeles, essa é uma das primeira diferençasque vi em relação a Nova York. É como se lá todo mundo fosse cheio de estilo, mas estranhamente menos preocupado com a aparência do que aqui. Los Angeles tem gente sarada, carros "tunados", salto alto. Nova York é a cidade da sapatilha, das caminhadas. Los Ageles, dos engarrafamentos. Muitas ruas sequer têm calçadas.

Bem, depois da badalação fomos pra Manhattan (Beach, não a minha Manhattan...), onde vive a Milena, com um marido fofo e duas filhinhas lindas, que falam português feito gente grande. Depois de dez anos como modelo, ela virou... doceira! E continua magérrima! A nós, restou cair de boca no brigadeiro, no docinho de abacaxi e nas trouxinhas de côco, minhas preferidas. Tinha também uma rosquinha de pinga, receita de família, deliciosa. Ainda passamos no Target pra comprar os compartimentos que faltavam para uma vida minimamente organizada dentro do RV e voltamos pra casa.

Mal sabíamos que a maior surpresa do dia ainda estava por vir. Chico abriu a porta para tomar banho e vupt! Dindi escapou. Feliz da vida foi se enfiando debaixo dos outros RVs mas, na escuridão, não conseguíamos encontrá-la. Coube ao Chico buscar uns salgadinhos de frango que ela adora e a mim enxergar a maluca debaixo de um carro mais afastado. Pegamos a danada, eu caí no choro e já estou mesmo convencida de que só a louca da Mila para fazer uma road trip com uma gata e um cachorro quase tão insanos quanto ela. Ok. Vamos em frente. Resta ter mais cuidado ao abrir a porta.

Tuesday, February 2, 2010

Dia 5

Pinduca e Dindi já são oficialente os mais felizes com a mudança. Ele passeia serelepe e nem late mais. Inacreditável. Ela, que uma semana atrás não podia ficar a menos de um metro da coleira sem virar a reencarnação do coisa ruim, já passeia pelo gramado e sobe em árvores. Diz o Chico que, se nós mudamos, imagine os animais. Concordo, mas confesso que jamais pensei que seria tão rápido.

Hoje fomos à produtora para um reunião em que programamos as próximas gravações. Logo depois, pegamos a estrada em direção a Seal Beach. Há mais ou menos dois meses, recebemos uma mensagem no blog do Planeta da dona desse spa. Rosana. O negócio é super bacana, Ela e a filha, Julia, montaram um spa só com produtos orgânicos da Amazônia. Graças ao espírito ecologicamente correto dos californianos viram a crise passar como se fosse brisa. Depois de conhecer o lugar, seguimos com as duas para a linda praia de Seal Beach. O mar do Pacífico é tão gelado que nem no verão dá pra entrar sem roupas de borracha. Só mesmo os surfistas se aventuram. Mas que visual! Imagens lindas, recordações também. E amanhã tem mais!

Dia 4


Tudo quase com cara de casa no RV, mas ainda não conseguimos desarrumar as malas grandes. As duas bitelonas permanecem deitadas nas cadeiras da pequena cozinha. A boa notícia é que hoje encontramos Shanti Correa (na foto com Clara, Gus e Tanira, a equipe da produtora). A carioca chegou aos Estados Unidos há 15 anos e foi morar em São Francisco. Sonhava ser atriz, mas por causa do sotaque, não conseguia papéis bacanas. Foi se enfiando entre uma função e outra na giantesca indústria do cinema. Virou produtora, fotógrafa, dançarina, Costuma brincar que tem várias vidas. Pois a última delas a levou para a intimidade das maiores celebridades. É que ela passou a ser responsável pela arrumação do closet de várias delas. Negócio tão sério que Shanti tem de assinar um termo se compromentendo a não revelar jamais a identidade dos clientes.

Depois de passearmos pela calçada da fama, propus a ela que viesse ao RV, arrumar o meu diminuto closet. Foi o máximo! Transformamos as roupas em rolinhos e devagar ficou tudo bem mais ajeitado. Foi um dia maravilhos também para o programa. Fizemos muitas belas imagens, mas voltamos tão tarde que a reunião na produtora ficou para amanhã.

Dia 2


Depois de uma noite sem sonhos, acordei para lembrar que agora era hora de sonhar acordada. Pinduca era o mais contente, andando sem coleira pelo gramado. Até Dindi saiu de casa, pela primeira vez. Foram só dois minutinhos, mas donos de gatos que já tentaram adestrar os bichinhos para uma caminhada com coleira devem saber que isso é motivo de abrir um champagne. Conseguimos desarrumar as malas e fizemos o primeiro contato com os outros moradores. Minha vizinha veio trazer laranjas e dizer que havia, ainda, um pé de grapefruit e um limoeiro, de onde podíamos pegar quantos frutos quiséssemos. Comemos laranja no quintal e fui correndo colher limões. Vinte de uma vez, que viraram uma azeda limonada no jantar. 

Como era sábado, nosso dia de folga, fomos ao Walt Disney Concert Hall e compramos ingressos para um concerto no sábado que vem. Almoçamos no shopping onde fica o Kodak Theater e fomos para o nosso dia mais turístico da temporada. Calçada da Fama, Teatro Chinês e Museu de Cera. Voltamos para o camping, impressionados com a lua cheia e... com o trânsito em Los Angeles! De verdade, acho que nunca vi tanto carro! Mesmo no fim de semana, demoramos mais de 40 minutos num caminho que o gps indicava ser de 11!  São as facilidades da vida americana, onde comprar um carro não parece ser luxo, e as dificuldades do transporte público por aqui. Repleta de viadutos, freeways e highways, a cidade é um convite à emissão de carbono, contrariando a fama de ecologicamente correta da Califórnia. 


Dia 1

A gente não se dá conta de que o sonho é verdade até a verdade gritar nos nossos ouvidos. Minha verdade chegou às quatro da manhã de sexta-feira, dia 29 de janeiro de 2010, quando o despertador gentilmente lembrou, com "Across the universe", na voz de Rufus Wainwrigth, que era hora de seguir para o aeroporto. Fomos eu, o repórter cinematográfico Francisco Quinteiro Pires, meu cachorro Pinduca, minha gata Dindi, sete malas grandes, três pequenas e um violão.

Na chegada ao aeroporto precebemos que era o início de uma feliz empreitada. A moça do check-in não cobrou pelas quatro primeiras malas. Disse que eu parecia a filha dela, que nunca viajava com menos de três malas, e sugeriu que usássemos o bilhete do vôo São Paulo - Nova York, que fizemos menos de um mês antes, para usar os privilégios de vôos internacionais. Tudo dentro das normas da companhia, mas que jamais saberíamos não fosse a boa vontade da atendente. E teve mais.

Depois de passarmos pelo detector de metal nos equilibrando com tanta bagagem de mão, um cachorro e uma gata, ouvi meu nome sendo chamado na fila de embarque. "Senhora Burns, favor comparecer à mesa". Chegando lá, a notícia. "A senhora não pode embarcar com dois animais na classe econômica. Um é o limite. Vai ter que voltar ao guichê de check-in, comprar uma caixa especial para animais, e despachar um deles". A veterinária já havia me precavido, mas depois de ser autorizada pela gentil moça do check-in, aquilo foi um balde de água fria. Até que veio mais uma boa notícia. "Senhora, infelizmente não vai dar tempo. A senhora terá de ir na classe executiva". Infelizmente, cara pálida? Lá fomos nós, eu e Pinduca. Francisco, sabendo que eu não havia dormido nada na noite anterior, ansiosa com a viagem, foi na classe econômica com Dindi, que é bem mais calma.

Desembarcamos numa Los Angeles ensolarada um dia depois de Francisco ver neve pela primeira vez, em Nova York. Fomos direto à produtora, onde nos receberam com uma sacola de boas vindas recheada de delícias brasileiras. De guaraná a bolacha de chocolate. Almoçamos juntos, a equipe mais animada dos últimos tempos. Depois seguimos para o estacionamento onde estava nossa nova casa.

O encontro com Moby Dick, que ganhou esse nome por ser grandalhona e guerreira como a baleia de Melville, foi emocionante. Era linda demais, do jeitiho que eu imaginava. Lá aprendemos a acoplar o carro no guincho e seguimos, com o funcionário deles Josh, ao volante, para o nosso primeiro acampamento.

Descobrimos, então, que a vida na casa nova era trabalhosa, mas deliciosa. Tínhamos que fazer os "hook-ups", as ligações de água, eletricidade e esgoto, mas nenhuma era um bicho de sete cabeças. Todos acompanharam, aprenderam, ajudaram. Depois, cada um seguiu seu rumo e eu e Francisco seguimos para fazer compras. De volta ao novo lar, só consegui fazer um penne com molho de tomate e capotar na cama. Feliz da vida.