Wednesday, February 17, 2010

Dias 16 e 17 (13 e 14/02) - Fim de semana


Seria apenas mais um fim de semana em Los Angeles não fosse uma brilhante idéia da Tanira: conhecer o Getty Center. Foi, sem dúvidas, o lugar mais bonito que vimos por aqui. O museu fica no alto de uma montanha, por isso tem uma vista deslumbrante da enseada de Santa Monica até Malibu. Quem não é chegado a exposições pode se deliciar num jardim caprichado. Como não é bem o nosso caso, nos enfiamos numa simpática sala onde se propunha um desafio: descobrir, entre centenas de obras, quais eram de Rembrandt e quais eram de seus pupilos. Na entrada da exibição a gente descobria que esse é um problem que aflige os grandes especialistas há décadas. O pintor holandês teve pelo menos 50 alunos e ensinava a todos eles o seu estilo, chegando a retocar as ilustrações. Tudo isso numa época em que não era comum assinar as obras. Resultado: uma confusão mental nos maiores conhecedores da pitura dele, e uma profusão de interrogações nas cabeças de nós, pobres mortais. Até uma lupa gigante ficava à disposição para a gente tentar ver, nos detalhes, as diferenças. Missão impossível, mas divertidíssima. Ainda fui dar um pulo no shopping com a Tanis para comprar cositchas pro motohome. É que quarta San Francisco nos espera...

No domingo tentamos ir no parque da Universal Studios, mas em menos de dez minutos, debaixo de sol e no final de uma looooonga fila, desistimos. Voltamos pro hotel para ver o pesadíssimo Full Metal Jacket e à noite fomos comemorar o aniversário do Randy, companheiro do Gustavo. A casa deles é linda e eles são cozinheiros de mão cheia. Mesa farta (tinha até couve de bruxelas, especialmente para mim!), conversa boa e uma vontade enorme de ficar até mais tarde. Jóia demais.

Tuesday, February 16, 2010

Dia 15 (12/02) - Sobre nós, animais


Depois de uma semana maravilhosa em San Diego, cheia de paisagens incríveis e histórias bacanas, não podíamos ir embora assim, sem mais nem menos. Decidimos tomar café no Balboa Park, onde fica o famoso Zoo, mas às oito da manhã até os elefantes decansavam. Acabamos indo parar num charmoso café francês do outro lado da cidade, onde encontramos uma figura tão comum por aqui que jamais estaria em exibição numa jaula de zoológico: velhinhos americanos apaixonados pelo Brasil. Um era mergulhador, outro tinha uma casa em Itaparica. Falaram muito, num português engraçado, e ordenaram: "vocês precisam ir a La Jolla".

Olhamos no google maps e vimos que o balneário ficava mesmo no nosso caminho, de volta a Los Angeles. E lá fomos nós.

O lugar é um santuário, onde focas aproveitam para desncansar. Ficam lá, morgando, tomando sol, depois mergulham nas águas transparentes do Pacífico. E não é meia dúzia, não. Eu contei pelo menos 63, numa tacada só. Foi emocionante. Saímos com a bateria recarregada. E precisaríamos dela na volta à cidade mais engarrafada do mundo. O gps indicava que chegaríamos às 3 da tarde ao hotel. Netse horário, de fato estávamos bem perto, na entrada da cidade. Acreditem, levamos mais DUAS HORAS E MEIA até o nosso destino. Às 5 e meia da tarde chegávamos aqui, cuspindo marimbondo, com uma inveja danada daquelas focas...


Thursday, February 11, 2010

Dia 14 - San Diego Futebol Clube


Depois de toda a tensão do dia de ontem, só mesmo histórias lindas para compensar. Principalmente se elas repousarem na gostosa San Diego. Começamos o dia com a história do João e da Selma, nordestinos arretados que vieram para os Estados Unidos 44 anos atrás, ralaram muito e acabaram construíndo uma empresa milionária. Tudo isso quando já passavam dos 50 anos. E o mais bacana: continuam vivendo uma vida deliciosa. Nos levaram para almoçar, passaram a manhã contando causos, combinaram futuros encontros. Depois, encontramos um grupo de brasileiros em Shelter Island, na Baía de San Diego, onde tiramos a foto ao lado. Para terminar o nosso último dia aqui, encontramos um grupo de táxi-ciclistas brasileiros que descobrimos por acaso na rua. Um deles, o Francisco, passava com uma bandeira do Brasil pendurada quando o vimos. Ele juntou uma turma e nos encontrou. São todos estudantes, que vem para cá fazer um intercâmbio curto, mas divertidíssimo.

Bem, depois de uma semana puxada, amanhã voltamos para Los Angeles, mas semana que vem, ueba, é São Francisco! Mal posso esperar!

Dia 13 - Vida na fronteira


A mula pintada de zebra foi a menor das surpresas que tivemos neste um dia de México na veia.

Hoje foi um daqueles dias que mudam a vida da gente. Mais um, aliás.

Acordamos cedo para que conseguíssemos voltar antes de anoitecer em Tijuana. O México fica a menos de 20 minutos do nosso hotel, mas pelas diferenças que vimos assim que atravessamos a fronteira, pareceram anos. Nem sei como explicar. Parece que o ar da cidade é carregado pela vontade que as pessoas têm de estar fora dali, ao mesmo tempo em que tem um certo tempero de alegria. Muito louco.

Passamos o dia "escoltados" pelo fiel Mestre Pelourinho, um baiano que, na definição do Chico, é o malandro, no melhor sentido da palavra. Aquele cara que faz da vida uma aventura errante e uma alegria constante, com o que quer que ela ofereça. Uma beleza de ver. Ele está no México há seis anos, anda pra cima e pra baixo num carro cheio de desenhos de florestas e mestres da capoeira, e é conhecido na cidade toda. Ainda assim, o único momento de turista que a gente teve foi o da foto ao lado. O restante foi de trabalho e tensão. O próprio Pelourinho, que contrariando as estatísticas nunca quis atravessar pros Estados Unidos, já se rendeu e confessou que não aguenta mais tanta violência e que a situação na cidade é ainda pior do que o terror que vemos nos jornais. Passeamos pela Avenida Revolución, decadente ponto turístico da cidade, visitamos a escola de capoeira dele, fomos à casa de uma amiga, conhecemos uma taquería. Ah, e esqueci de dizer! Tomamos um café da manhã típico: feijão, batata assada e um louco omelete vegetariano que vinha com pele de porco (blergh) ao lado. Por que eles não chamam isso de omelete de vegetais? Eu sei lá! Só sei que no fim das contas foi o que me sustentou sem almoço até as 9 da noite.

Estava tudo tenso, mas relativamente tranqüilo, até chegarmos ao temido muro. Fomos acompanhando seu doloroso trajeto até chegar à fronteira do mar. Ali foi difícil aguentar. A energia péssima, dezenas de homens vagando, alguns olhando o navio da marinha americana enquanto o sol se punha. E pouco antes de o muro deitar na areia, ele foi coberto de cruzes, de ponta a ponta. Cruzes brancas a perder de vista, representando aqueles que morrem tentando atravessar. E San Diego logo ali, onde a vista, sem esforço, alcança.

Foi duro voltar para casa. E mais duro ainda, dormir.

Tuesday, February 9, 2010

Dia 12 - Um dia numa base do US Marines


Desde que cheguei aos Estados Unidos sonhava com o dia em que faria esta matéria. Um brasileiro nas Forças Armadas americanas. Tinha ouvido falar de alguns casos, mas nunca tinha conhecido nenhum e achava que jamais chegaríamos a eles. Até conhecer Alex.

Catarinense boa praça, que se alistou pensndo que no futuro conseguiria ter sucesso na vida política americana, ele nos convidou para passar o dia em Camp Pendleton, o maior campo dos Marines. Esse grupo é como o fuzileiro naval no Brasil. Fazem um pouco de tudo: aeronáutica, exército, marinha. São considerados a elite da tropa. Mais impressionante que saber que Alex havia sido selecionado no rigoroso exame deles, resistido aos treinamento, em que os militares passam frio, calor, fome e todo tipo de privação, foi descobrir que ele era completamente apaixonado por aquela vida. Vislumbrar uma guerra, segundo ele, não dá medo. Diz que com o treinamento que recebeu tem certeza de que voltará seguro.

Dentro do campo fizemos coisas normalmente proibidas para civis: almoçamos com eles, visitamos a academia de ginástica, fizemos compras, conhecemos o dormitório de um outro brasileiro (que, aliás, conhecemos por acaso no estacionamento. Ele nos abordou num português carregado de sotaque quando viu a bandeira estampada no carro). Um dia pra não esquecer jamais. Até porque vou dormir com ainda mais perguntas do que tinha quando acordei.

Dia 11 - About a sunset and french fries


Já era hora de sair de Los Angeles. Acordamos cedinho, por volta de 7 da manhã, e fomos arrumar o RV, que iria para a pintura. Tudo demora muito mais do que se imagina nesta nova vida. Desengatar os hook ups, engatar o carro no motorhome. Uma batalha. Sobrevivemos e Chico dirigiu o bitelão pela primeira vez. Também sobrevivemos. Deixamos o RV na loja, em Burbank, e seguimos para Carson, onde encontraríamos um brasileiro que enveloparia o carro pequeno. Nele, seguiríamos para San Diego. Tudo isso antes do almoço.

O problema é que chegando lá me dei conta de que havíamos esquecido o passaporte no RV. Como iríamos para o México na quarta-feira? Como entraríamos numa base do exército americano no dia seguinte? Voltamos tudo, cuspindo marimbondos, e só depois das 3h conseguimos pegar a estrada, com o carrinho já pintado de verde e amarelo e com o logo da tv e do programa. Mas não demorou para descobrirmos que havia um motivo para isso.

No meio da estrada, quase chegando a San Diego, vi um dos mais lindo espetáculos da minha vida. Uma revoada de gaivotas. Paramos no acostamento e descobrimos que as belezuras já estavam tão acostumadas com humanos admirando seus vôos rasantes, que comiam na nossa mão! Já passava das 5h e quando olhamos para o horizonte, o sol começava a se por. Sem brincadeira, eu parecia uma louca, fazendo como os hippies no Arpoador. Bati palmas, assobiei, e os americanos, não sei por que, não entenderam muito bem.

Voltamos pra San Diego e descobrimos uma cidadezinha bem charmosa. Fomos a um café francês no East Village (tão particular quanto o East Village novaiorquino) chamado Café Chloé e comemos a melhor batata frita das nossas vidas. Voltamos pro hotel, onde Pinduca e Dindi nos esperavam impacientes. Hora de dormir bem porque o dia seguinte promete.

Dias 9 e 10 - Entre concertos e futebol

O fim de semana de folga foi perfeito. Aproveitamos o sábado para resolver mais coisinhas no RV e para fazer um programa que eu estava planejando desde que vi o filme "The Soloist": ir ao Walt Disney Concert Hall. Compramos os ingressos pra este sábado uma semana antes e, apesar de eles serem os mais baratos da casa (50 dólares), a moça da bilheteria prometeu: "há quem diga que são os acentos com o melhor som da casa". Imaginando algo perto do melhor som da sala vista como a que tem a melhor acústica do mundo, sabíamos que o espetáculo era promissor.

Por fora, o lugar já vale a pena. Foi construído por Frank Gehry (aquele do Guggenheim de Bilbao), portanto aqueles jogos de luz de tirar o fôlego já estavam previstos à luz do dia. Mas juro que não imaginava que à noite as estruturas de metal refletissem tanta luz.

Os ingressos davam direito a uma palestra sobre a 7a Sinfonia de Beethoven, que ouviríamos a seguir. Foi uma aula. Descobrimos que, ao escrevê-la, o compositor estava cheio de receios, porque havia acabado de compor a 6a, comparada a um quadro, de tantas paisagens emitidas pelo som. Ele não queria que pensassem que sua música deixava tudo claro, como se tivesse legendas. Sabia que se tratava de uma obra abstrata e não queria maus julgamentos. Escreveu o que Wagner chamou de "apogeu da dança".

Regida pelo maestro Herbert Blomstedt, um velhinho fofo que deu vontade de prender no canto da sala da minha casa, mas vigoroso como um moleque de vinte e poucos anos, a Filarmônica de Los Angeles fez a gente querer dançar. Às vezes parecia que eu estava numa banheira de gelo, às vezes sentia um enxame de abelhas me picando, às vezes elas viravam borboletas. Não tinha como ser a mesma depois daquilo. Saímos de alma lavada e nem o trânsito de Los Angeles parecia nos afetar. Claro, até errarmos o caminho e irmos parar no Skid Row, uma área em Downtown que lembra as piores ruas do centro do Rio. Moradores de rua, bêbados, dava medo de parar no sinal. Era o outro lado do "The Soloist". Era a casa do personagem do Jamie Foxx.

E isso foi só o sábado. No dia seguinte, um programa bem americano. Fomos ver o Super Bowl! Torcemos que nos acabamos pelo New Orleans Saints, entre um gole e outro de Corona e chips com a melhor guacamole que já comi (o Rosa Mexicano que me desculpe...). Não poderia ser diferente com Tanira de anfitriã. Casa linda, comida boa, risadas soltas. E com os Saints saindo vitoriosos. Continuo sem entender as regras do futebol americano, mas uma coisa eu confirmei: New Orleans é a Salvador dos Estados Unidos. Não vejo a hora de chegar lá.