Wednesday, March 3, 2010

Dia 33 (02/03) - Descobrindo a verdadeira Las Vegas


Nosso segundo dia de gravação foi um luxo! Guto, motorista de limosine, foi nos encontrar no camping. Chegou com a mulher, Cintia, que também já dirigiu carros de luxo em Las Vegas. Convidei os dois para lanchar em casa e o primeiro mico já veio na hora do cafezinho: não tinha açúcar. Busquei uns envelopinhos na recepção do camping e seguimos conversando bastante. Atualmente, Cintia trabalha distribuindo cartas em jogos de poquer e acabou nos revelando o mundo de pecados da Sin City. Todos os funcionários de cassinos são trenados e aprendem a contar cartas, como a gente vê nos filmes, para que possam identificar jogadores que usam isso para desfalcar os cassinos. Cada cassino tem o equivalente a um banco nos bastidores, porque os ganhadores têm de ser pagos na hora. Como contar tanto dinheiro? Os funcionários usam máscaras, para evitar inalar a grande quantidade de cocaína presente nas notas. E isso é só o começo. Decidimos passear pela cidade no carrão do Guto (nosso vizinhos de Rv pediram para tirar foto e tudo!). Guto nos contou das caronas que dá a milionários, Um deles chegou a deixar 100 mil dólares com ele, no banco de trás do carro, enquanto dava "um pulinho" dentro do cassino. Outro ofereceu uma grana para que ele fizesse sexo com a mulher dele, que tinha tara em limo driver. E por aí vai.

Para respirar de tudo isso, depois da última gravação, já bem tarde, fomos ver mais um Cirque du Soleil. Mystere é bem mais performático que Love. Lembra Saltimbanco e Alegria, deixa gente de boca aberta. E prontos para pegar a estrada para Phoenix, amanhã.

Dia 32 (01/03) - Dentro do Globo da morte


O primeiro dia de gravação em Las Vegas começou mostrando um pouco do que é a vida no mundo do entretenimento. Fomo a um circo, onde o brasileiros Neco faz espetáculos no Globo da Morte. Sempre foi meu número mais detestado no circo, aquele em que eu baixava a cabeça no colo da minha mãe. Só o barulho já me fazia tremer da cabeça aos pés. Pois hoje, não só vi o número inteiro (assustada, como sempre), como entrei no globo enquando Neco fazia acrobacias! Poxa, se eu sou capaz de dirigir um caminhão puxando um carro vou ficar com medo de uma motoca? Siiiiim!!! Nunca tremi tanto!

Mais desafiador que isso foi entender a vida daquelas pessoas. A trupe do circo normalmente nasceu sob a lona. É coisa de família. E tem mesmo que ser, para fazer tudo valer a pena. Primeiro desafio: eles moram em trailers. Se para a gente, que tem tempo determinado para a aventura, é uma barra, imagina passar a vida assim, sendo a casinha tem que ser dividida entre uma família inteira. No caso da Luciana, dançarina brasileira da mesma companhia, vivem ela, o marido e três filhos. Segundo desafio: é um mercado complicado, cheio de altos e baixos. Em época de crise, por exemplo, mal dá para pagar as contas. Terceiro desafio: vivendo sem endereço fixo, coisas básicas, como a educação das crianças, acabam tendo de ser negligenciadas. Os filhos da Luciana, por exemplo, fazem home school, mas já seguem os passos dos pais. Romarinho é malabarista. A do meio, contorcionista e o pequeno, ainda com cinco anos, por enquanto só corre de um lado pro outro. Tudo isso em nome de uma crença na arte e na genética. Todos eles falam no "sangue do circo" e tratam a gente como "pessoas da cidade". Com tanta coisa nova na cabeça, dormir, foi mais difícil que engolir facas.


Dia 31 (28/02) - À procura do caneiro de chifre longo


Depois da cara de caroço de caju do bartender, resolvemos procurar o que fazer em Vegas por conta própria. Estávamos de saco cheio de ver construções, prédios, hotéis, luzes de neon. Chico descobriu, num guia, o Red Rock Canyon, a 16 milhas de Vegas. Partimos para lá bem cedo e, caramba, que paisagem incrível! As pedras vermelhas se misturam a montanhas com neve no topo, formando um deserto muito peculiar. Não existe nem sombra de paisagem como essa no Brasil, por isso as coisas ganham um ar de ineditismo que deixa tudo ainda mais fascinante. O lugar foi um oceano em algum tempo muito remoto e dessa época restam apenas alguns laguinhos que são fonte de vida para os carneiros de chifre longo, que compõe a maior população dessa área onde não mora ninguém. Há placas por todo lugar avisando que os tais bichos estranhos vivem ali e no guia mesmo havia recomendações de que a gente tomasse cuidado com os furiosos. Mas no fim das contas, foi muito barulho por nada. Pegamos uma scenic drive que dura mais de duas horas e nem mesmo um carneirinho apareceu.

Saímos de lá às pressas para ver O Rei Leão, que não vi na Broadway, mas me havia sido recomendada por muita gente. Confesso que imaginar um teatro em que gente se evste de bicho me apavorava um pouco, mas nesta montagem eles fazem isso com uma elegância de tirar o fôlego. As músicas de Elton John deixam tudo ainda mais mágico. Parece que a gente está num sonho. E vocês não acreditam em que estava por lá, no cantinho do palco. O carneiro de chifre longo! Pelo menos por alguns instantes eu quis acreditar que aqueles atores eram de verdade para contar em casa que fiquei cara a cara com o bicho mais temido do deserto. Viva a Broadway!

Saturday, February 27, 2010

Dia 30 (28/02) - Mila num céu de diamantes


Sabe o que? Las Vegas tem seu charme. Tá, talvez não seja Las Vegas, e sim o Cirque du Soleil. Mas que tem, tem. Logo cedo fomos andar pela Las Vegas Boulevard, que parece ser a única rua da cidade. Nela estão todos os hotéis, ou seja, todos os pontos turísticos da cidade. Muito louco um lugar em que o que se tem para ver são hotéis. Mais louco ainda que eles representem lugares de verdade que, claro, são infinitamente mais lindos. O Empire State pequenininho, a Opera de Paris de parede de isopor, pessoas andando em gôndolas dentro de uma piscina... Tudo beeeem estranho. Mas gostei das águas dançantes. Cafona, mas divertido. Ainda almoçamos num italiano onde Frank Sinatra costumava ir (lembrei na hora de um restaurante em Madri que exibia orgulhoso uma placa "Ernest Hemingway never ate here") na época em que andava grudadinho com o pessoal da máfia italiana. Deve ter sido destino eu ter lido "Frank Sinatra has a cold" ano passado. Não fosse pela garçonete russa que nos atendeu, eu continuaria achando que as pessoas aqui são as mais antipáticas em que trombamos até agora. Epa! Ela é russa... então... À noite, apesar da chuva, seguimos para o compromisso mais aguardado do século: Love! Há tempos queria ver o espetáculo do Cirque du Soleil com músicas dos Beatles. Primeiro, pelos Beatles. Depois, pelo Cirque du Soleil. E valeu a pena pelos dois. É muito lindo ver os hinos da sua vida ganhando interpretações tão ricas, coloridas. Lucy passeava por um céu de diamantes de verdade (com luzinhas espalhadas pela platéia), polvos surgiam numa espécie de jardim debaixo d'água, soldados tentavam segurar acrobatas de volta à USSR. Lindo, lindo, lindo. Me acabei de chorar e voltei para casa de alma lavada. E achando que Las Vegas pode, sim, valer a pena.

Dia 29 (27/02) - Enfim, Las Vegas


Hoje cruzamos um deserto. De verdade. O Mojave é um dos maiores dos Estados Unidos e cobria quase todo o nosso caminho. Uma paisagem tão diferente as que temos no Brasil que acabou se tornando linda aos nossos olhos. Eram cores que nunca tínhamos visto pintando montanhas. Mais de cinco horas depois, chegamos. Las Vegas é uma cidade estranha. Antes de chegar, falei com alguns amigos efusivos: você vai amar, é o melhor lugar do mundo! Outros, foram veementes: vocé vai detestar, é péssimo! Confesso que minha primeira impressão não foi nada boa. Chegamos a Vegas mais ou menos às 3 da tarde, sem almoço, por causa da minha brilhante idéia de vir de uma pernada só para fugir do trânsito de sexta-feira. Como já disse mil vezes aqui no blog, vida de motorhomeiro não é fácil e até estacionarmos e fazermos os hookups já eram 4 e meia. Só conseguimos comer às cinco, azuis e tendo que enfrentar o mau humor da cidade toda. Acabamos numa steak house, o único restaurante aberto no Circus Circus, onde estamos acampados. Resultado: meu almoço foi uma porção de cogumelos assados! Pior foi quando resolvi perguntar ao bartender se havia alguma coisa para fazer aqui além de ir a cassinos. Ele gaguejou e me lançou um olhar Benny Goodman. Depois, fez cara de paisagem. É, a cidade é isso mesmo. Vou esperar amanhã para ver se o Cirque du Soleil me faz mudar de idéia.

Friday, February 26, 2010

Dia 28 (26/02) - Bakersfield


De São Francisco a Las Vegas é um chão. De carro comum são pelo menos dez horas. No nosso, nem se fala. Por isso resolvemos fazer a viagem em dois tempos, parando em Bakersfield, no meio do caminho. Como de costume, foi um trampo dirigir o RV, mas fizemos ótima viagem. O triste foi chegar e descobrir que o camping era o melhor que vimos até hoje! Banheiro incrível, laranjeiras ao redor das barracas, full hookups e uma vaga que eles chamam de pull trough, quando a gente não precisa fazer manobra. Entra de frente e sai de frente. Quem já andou de motorhome sabe que isso não tem preço! Para completar, ainda tinha donuts com café de graça, no café da manhã. A gente descobre que está mal das pernas quando acha o máximo dos luxos ter banheiro limpo e donuts de graça!

Dia 27 (24/02) - Minha casa fica longe do Vale do Silício


Estávamos precisando de uma folga, mas pesamos e achamos que não seria justo sair de São Francisco sem dar um pulinho no Vale do Silício. Primeira parada, a Nasa, onde dois brasileiros comandam uma empresa de fotografia digital. Fazem álbuns de astronautas, da lua, e se divertem. De lá, passamos em outra grande empresa para conhecer outro brasileiro bem sucedido nesse nebuloso universo da alta tecnologia. Mas o bacana mesmo foi o almoço, entre as duas gravações. Fomos a um restaurante brasileiro! Juro que eu não imaginava que estivesse com tanta saudade de casa! Tive ainda mais certeza de que precisava ouvir voz de família à noite, quando encontramos a Carola. Fomos a um restaurante super bacana, chamado The Stinking Rose (juro que é esse o nome!). No cardápio, tudo com muito, muito alho. Batemos papo, rimos muito e comemos, claro! O mais engraçado é que a Carola demorou para achar nossa mesa porque, sabendo que eu iria janar com minha "equipe", procurou uma mesa grande. Ela não acreditou quando descobriu que a tal "equipe" éramos nós dois! Ainda passamos no The Saloon, famoso refúgio de blues de São Francisco. Um daqueles bares que a gente acha que só existem em filmes.