Saturday, May 8, 2010

Dia 98 (06/05) - Bob e Zydeco


Demos uma sorte danada ao encontrar Bob Freeland no nosso caminho. O nome americano esconde um brasileiro cheio de histórias. Filho e um americano e uma brasileira, nascido em São Paulo, ele morou no Panamá, em Lima, em São Paulo, Rio... Enfim, em dez cidades diferentes. E foi New Orleans que ele escolheu para chamar de casa depois da aposentadoria. E foi aí que ele começou uma nova vida. Deixou de lado a empresa de cartões de crédito para dar aulas de história e virar guia de turismo. Durante um dia, ele foi o nosso guia. E ver a cidade pelos olhos de uma pessoa tão apaixonada foi maravilhoso, nos deixou ainda mais apaixonados. Passeamos pelo French Quarter, comemos um Gumbo delicioso, visitamos o convento das Ursolinas, e ele ainda nos deu dicas para depois do passeio. Fomos ao Rock and Bowl, uma casa de shows aberta desde 1941, que já recebeu estrelas da música daqui. Hoje era dia de zydeco, uma espécie de forróblues. Instrumentos eletrônicos, sanfona, reco-reco. Juntos, trouxeram um som único, que fez a gente se acabar de dançar.

Dias 96 e 97 (04 e 05/05) - A Nova Orleans reconstruída


Depois de um dia pesadíssimo ontem, passamos dois dias indo e vindo pela Nova Orleans já inteira. na área turística da cidade, o French Quarter, tudo já está bonito, reconstruído, quiçá melhor que antes. Ainda assim é estranho imaginar que o aquário central perdeu todos os peixes porque não havia luz.

Passando o susto, é possível aproveitar e muito as belas construções dessa cidade que já foi da Espanha, da França, dos Estados Unidos, claro, e sempre será dos africanos. Na culinária rica, na arquitetura charmosa, na música diversa, Nova Orleans é única. Talvez seja a menos americana das cidades por onde passamos. O que pode ser uma alegria e tanto.

Longe dali, em Kenner, também conhecemos Greyce, um brasileiro que veio para cá depois do furacão. Pois é, a cidade que tinha mais de 500 mil habitantes viu esse número cair pela metade, mas a comunidade brasileira só cresceu. Foram trabalhadores de todo canto, vindo ajudar na reconstrução.

Dia 95 (03/05) - Somos iguais em desgraça


Desde o festival venho pensando que New Orleans é, de longe, a cidade americana mais parecia com o Brasil. Antes de mais nada, pela gente. São pessoas singularmente felizes, apaixonadas pelas próprias raízes. Gostam da música que fazem, da comida que preparam, brindam às próprias tradições. Também saber ser felizes, sabem atropelar os pesares, sabem trabalhar menos quando necessário. Claro, não estou falando de todos, mas da índole do povo, da energia que se sente cá e lá. Mas hoje, gravando no 9th Ward, tive a triste percepção de que somos parecidos também em coisas ruins. A área, baixa, foi a mais atingida pelo furacão Katrina, 5 anos atrás. O dinheiro para a reconstrução não chegou às mãos de boa parte das famílias e a força dos voluntários e das ongs, naturalmente, não foi suficiente para reconstruir a área, que mais parece uma cidade fantasma. casas abandondas, índices de violência altíssimos, miséria. Vimos operários tirando entulho de uma casa, 5 anos depois. Um deles me disse"onde está o governo? Nã sabemos dele e ele não sabe da gente". Vimos um homem numa cadeira de rodas morando de favor com amigos, 5 anos depois. Vimos lama dentro das casas, 5 anos depois. E lá, mais uma vez, nos demos conta das nossas semelhanças. No meio de tudo isso, os tais operários riam alto, empurrando uns aos outros para a frente das câmeras, fazendo terríveis piadas homofóbicas e racistas, sendo felizes, no meio de tudo isso. Cinco anos depois.

Dias 92, 93 e 94 (30/04, 01 e 02/05) - Festival de Jazz


Nos nosso três primeiros dias em New Orleans, realizamos um sonho atrás do outro. Das 11 da manhã às 7 da noite, sexta, sábado e domingo, ouvimos música boa. De ídolos antigos, como Jeff Back, Pete Fountain, Earth Wind and Fire, Ellis Marsalis, Take 6 a novidades incríveis, como Margie Perez, de quem virei fã de carteirinha. O festival é organizado, tem banquinhas com comidas típicas (aqui Mc Donalds não passa nem perto) e resume muito da rica cultura de New Orleans: música de primeira, comida boa e gente feliz.

Dia 91 (29/04) - Putz!


Quando a gente imagina que já passou por tudo nessa estrada maluca, a chegada Nova Orleans nos puxou o tapete. Primeiro porque nos deparamos com paisagens terríveis. Passando pela área leste da cidade, parecia que uma bomba atômica tinha acabado de atravessar o caminho desta esperada cidade do sul. Chegamos ao camping, no meio desta região, e fomos recebidos por uma chinesa que não falava inglês com pinta de serial killer, coberta de pingos de tinta branca, que provavelmente ela usou pra ocultar sua última vítima. A distinta louca deu um envelope pro Chico e começou a dizer; "money, money". O tal camping onde a gente ficaria não tinha portão e era um terreno baldio mais mal cuidado que um terreno baldio de verdade. Fui pedir referência ao único grupo de pessoas ali dentro e quando me dei conta, era três bêbados. Entramos no motorhome, determinados a sair correndo dali, mas, sem endereço, paramos no portão à espera de uma luz da produção. Bow, bow, bow. Um gordo com cara de açogueiro de filme dos irmãos Coen bateu à porta ordenando que a gente saísse dali imediatamente. Depois desse passeio pelo trem fantasma, conseguimos parar em outro lugar, mais seguro e longe dali. E para descansar, fomos para a Bourbon Street, comer ostras e tomar uma Abita na The Bourbon House. Ufa!

Dias 89 e 90 (27 e 28/04) - A caminho da terra dos sonhos


Para chegar a New Orleans saindo de Miami são mais ou menos 13 hora num carro comum. No nosso, você já sabe. Por isso fizemos a viagem em dois dias. Primeiro, seguimos até a capital da Flórida, Tallahassee. Uma das nossas maiores diversões nesse trajeto foi tentar descobrir o motivo pelo qual os motoristas paraddos pela polícia estavam sendo advertidos. Era tanta gente sendo parada, que a curiosidade se tornava inevitável. Dormimo num camping ok para pegar a estrada novamente no dia seguinte.

Tuesday, April 27, 2010

Surpresas no caminho

Tem dias em que nada de especial acontece; a gente não grava, não entrevista ninguém, e ainda assim aprende um bocado. Hoje foi um deles. Chegamos a Miami de manhã cedo, mas passamos uma hora na imigração. Pegamos um shuttle sozinhos e rapidinho estávamos na oficina onde deixamos o carro e o Rv para fazerem a revisão. A primeira surpresa veio logo depois, quando chegamos ao camping e vimos o carro todo sujo, as coisas caídas no chão. Sim, americanos fazem essas coisas. O serviço ficou bem feito, os carros bem mais ajeitadinhos, mas o capricho ganhou nota zero. A segunda surpresa veio em seguida, quando fomos buscar a câmera no conserto. Fomos recebidos por uma dupla que nada tinha a ver com o esteriótipo (que tatas vezes confirmamos ao longo da estrada) do americano que pouco se interessa por outras culturas. Queriam saber absolutamente tudo sobre o Brasil e, mais que isso, sobre nossa vida, como brasileiros vivendo na casa deles. No final, estávamos todos encantados: nós, com a curiosidade deles; eles, com a nossa coragem. A aventura, aliás, continua amanhã, quando seguimos para Tallahassee, capital da Flórida e nossa primeira parada rumo ao Festival de Jazz de New Orleans.