Thursday, February 10, 2011

Nixon in China


Quando não entendo muito do assunto tenho uma dificuldade enorme de comentá-lo. Não consigo sair dando orelhada em terreno estranho. Mas gosto muito de ópera. É, não entendo nada, mas só pelo amor, já me sinto capaz de dar alguma opinião. E ontem, puxa, que ópera mais chata!
Nixon in China é bacana por ser moderna. Os fatos se passaram no início da década de 70, outro dia, se pensarmos que se trata se uma arte em que quase sempre estão retratadas histórias de, no mínimo, um século atrás. Até tentei me apegar a isso para aproveitar o programa, que me custou 20 dólares e quatro horas na fila do rush hour ticket. Mas não deu.
O elenco era fraco. O Nixon, tadinho, fazia um esforço tremendo para se fazer ouvir. Terminei ontem a biografia da Callas e lembrei na hora de espetáculos que ela cancelou por não ter voz. Ou pior, de outros em que ela pagou um baita mico, forçando a barra para cumprir contrato mesmo estando gripada. Pensei que fosse esse o problema do barítono, mas não. O bichinho devia estar nervoso, sei lá. Sei que foi uma tortura para quem estava ouvindo. A música também não contribuía para o bom desempenho dos cantores. As melodias eram pobres, às vezes mais parecia um rap que uma ópera.
Valeu mesmo pela experiência de ver como os americanos reagem frente a uma criação de um conterrâneo. Muitos foram embora antes do fim (viu como era chato?), mas a maioria resistiu até o final apenas para aplaudir John Adams. Em tempos de concorrência chinesa, todo nacionalismo é bem-vindo.

Tuesday, February 8, 2011

Vlado e a nossa amnésia


Ontem assisti, pelo Netflix, a "Vlado: 30 anos depois", um filme de João Batista de Andrade. Pensei nos meus pais, na época do movimento estudantil; em Doramundo, filme em que os dois amigos se encontram (Vladimir Herzog escreveu o primeiro roteiro, João Batista de Andrade dirigiu); no mais recente documentário "Tempo de Resistência", que meu pai intimou todos os amigos a verem, para que não esquecessem aquele período tão doloroso quanto decisivo para a nossa formação como povo.
Mas pensei muito mesmo na minha viagem para a Argentina, nos idos de 2004, se não me engano. Fui com minha irmã. Organizamos tudo para chegar lá no dia em que os hermanos comemoram o fim da ditadura militar naquele país. O problema é que era um feriado e não era uma data redonda para as comemorações, portanto imaginei que não veria ninguém na rua. "Devem ter viajado pro feriado", pensei. Mas os argentinos tinham muito a me ensinar. Quando cheguei ao Obelisco uma multidão tomava as ruas. "No perdonamos y no olvidamos", gritavam, mais de duas décadas depois do fim do regime. E me envorgenhei da nossa falta de memória. Devia haver pelo menos 200 mil pessoas naquele fim de tarde em Buenos Aires, seguindo em marcha até a Casa Rosada. Me juntei às mães da Praça de Maio como se aquela luta fosse minha, que se fossem meus filhos os mais de 30 mil desaparecidos durante o período da Revolução Argentina. Mas não eram.
Os nossos filhos - ou pais - atuaram em lutas semelhantes aqui no nosso quintal, e cabe a cada um de nós fazer com que essa história não seja esquecida. Vendo Vlado ontem percebi, mais uma vez, que apesar de todo o meu interesse, ainda sabia pouco sobre a história desse herói acidental. Menos ainda sei de outros heróis brasileiros, que desapareceram no cruel coador da memória.
Cabe a nós lembrar. "No perdonamos y no olvidamos". Talvez a internet, os filmes, os livros, sirvam também para isso. Para refrescar uma lembrança que nos construiu como pátria.

Monday, February 7, 2011

Solidão companheira


Semana incrível. Concerto no Carneggie Hall, mais doze vinis na coleção, visita maravilhosa em casa, passeio por torda a ilha (levando a visita), show no Jazz at Lincoln Center, exposição do Hopper, La Bohéme na Met, restaurantes incríveis com amigos incríveis, despedida da Aline, jantar na Aninha com direito a baralho com Joaninha.
Mas vou ser breve. La Bohéme foi frustrante. Não é a ópera mais bacana do mundo e, pela primeira vez, achei a montagem do Zefirelli meio datada. Não sei se é porque estou lendo a maravilhosa biografia da Maria Callas (que quando eu terminar, talvez amanhã, merecerá um post inteiro), mas fiquei meio exigente de uma semana para cá. Tudo bem que o segundo ato foi emocionante. Pela música, pela neve que caía lá fora e no palco, pela companhia do João. João é nossa visita maravilhosa. Conhece ópera e música clássica como poucos (pouquíssimos, aliás), e não nos fizemos de rogados ao aproveitar a presença dele para ver tudo o que queríamos com tradução simultânea.
Foi assim também no Carneggie Hall, quando ouvimos a orquestra de Cleveland tocar um vigoroso Wagner, um lírico Schumann e um tenaz Bartók. João explicou que tocar peças tão distintas é rotina entre novas orquestras que, na tentativa de encorajar patrocinadores, precisam mostrar serviço. Funcionou. Saímos de lá maravilhados. E tinha, ainda, uma Tiger Mom no assento da frente, fuzilando seus pequenos tigrinhos, com o olhar, a cara tosse. Os dois eram lindos. Imitavam o pianista no apoio de mãos. Espero que o azedume da mamãe não os afaste do amor pela música.
E teve o Hopper. Meu favorito entre os americanos, virou uma espécie de obsessão desde que cheguei à América. Quando morava em Paris, meu périplo por museus foi em vão. Não vi nada dele. Aqui, me esbaldei. Vi Hopper por onde passei: Los Angeles, Dallas, Cleveland, Pittsburgh e, o grand finale, em Chicago. Mas a maior coleção fica aqui pertinho e casa, no Whitney. Já tinha ido lá procurar meu objeto do desejo algumas vezes, mas a exposição que está em cartaz até abril é especial. Mostra o pintor ao lado de outros artistas de seu tempo. E a gente descobre que a solidão das telas não transborda para o profissional. De Stiegliz a Demuth, muitos dialogaram com ele. Foi revelador. E, para quem estiver em NY, o passeio vale ainda mais se combinado com a exposição de Charles de LeDray, no mesmo museu. Minimalismo, loucura, chamem como quiserem. Eu chamo de beleza.

Thursday, January 27, 2011

Direto do túnel do tempo


Achei que, voltando a morar em Nova York, com tanta coisa para fazer, passaria a atualizar o blog diariamente. Pois não é que, justamente por ter tanta coisa para fazer, não consigo! Então hoje vou falar de um show que vi anteontem. Mas para quem esperou quarenta anos, o que são dois dias?
Charles Bradley deveria ter estourado como um grande nome da Soul Music na década de 60. A voz crua, triste, expressiva, macia, lembra Otis Redding. A postura no palco, com direito a requebrados e espacates, tem um ar Jamesbrownístico irresistível. Mas quando ele começou a despontar no mercado musical, o rock and roll surgia fresco, jovem, e a Soul Music soava como música da vovó. Não é à toa que o primeiro álbum dele, lançado no último dia 25, no Brooklyn, sai com o título "No time for dreaming". Resta pouco tempo para Bradley mostrar a que veio e ele não quer perder um minuto sequer. Por isso sua performance é tão intensa, regada a "I love you" para o público e a uma certa amargura em "Why is it so hard to make it in America?".
A delícia de ver o show de Bradley no Southpaw (casa linda na 5th Ave do Brooklyn) foi me sentir transportada à época de Sam Cooke e Odetta sem precisar de uma vitrola e sem recorrer a covers baratos, cheios de técnica, mas que deixam a alma em casa. Bradley se rasga, chora, se apaixona pelo público genuinamente, como se fazia em 62.
Se você é dos meus e vive se perguntando, "por que é que eu não nasci naquela época", é hora de parar de reclamar. Acompanhado de uma banda de jovens surpreeendentemente despretensiosos, a Menahan Street Band, Bradley traz a verdadeira alma do soul para os nossos dias. E tudo que vale a pena permanece intacto até hoje.

Monday, January 10, 2011

De Messerchmidt a Norman Rockwell


Uma das coisas de que mais gosto nesta vida é ser surpreendida. Tem gente que se sente mal quando não conhece um artista, não ouviu uma música. Para mim, êxtase é não saber. Ter certeza da minha pequenice.
Semana passada a novidade veio na Neue Gallerie, uma preciosidade ao lado do Central Park que guarda alguns dos mais lindos quadros de Klimt e Schiele. Franz Xaver Messerschmidt influenciou vários artistas, mas para mim era um desconhecido. Foi Chico quem, vendo no jornal expressões esquisitas demais para um escultor do século 18, quis conhecê-lo. É claro que ele foi taxado de doido - e talvez tivesse mesmo uns parafusos a menos, ou a mais - mudou de cidade, morreu sem ser reconhecido. Mas até hoje o que ele faz é intrigante.
Messerschmidt chegava às expressões que viraram sua marca se beliscando. São todos auto-retratos, que ele desenhava após árduas horas em frente ao espelho.
A técnica foi repetida por diversos artistas. Mas em termos de processos, ninguém ganha de Norman Rockwell. O passo a passo das criações do gênio da capa do Saturday Evening Post é revelado na exposição em cartaz no Brooklyn Museum. O curioso é que descobrir que Rockwell projetava retratos na tela para dar origem a seus quadros, coisa que ele mesmo chama de "trapacear", não tira em nada a beleza da obra. Mais que um pintor, ele era um diretor, um cineasta apaixonado pelo humano. Usava vizinhos, parentes, amigos como modelos. Pedia a fotógrafos profissionais que registrassem o momento e depois usava partes diferentes de cada foto para chegar ao resultado final. Somos apresentados a um Rockwell humano como sua obra.
Assim, ele nos mostra que conhecimento é tolerância.

Wednesday, December 8, 2010

Guerra Cinzenta


Algumas experiências acontecem lado a lado por obra de Santa Clara. Só pode ser. O que mais explicaria o fato de eu ter lido Amos Oz, visto Anselm Kiefer e assistido a Joan Baez no mesmo dia? Separadamente, talvez nenhum dos três fizesse tanto sentido quanto juntos. Um puxou o outro.
Primeiro, "How to cure a fanatic", um livrinho de bolso tão pequeno nas páginas quanto gradioso nas idéias. Munido de palavras (num trecho, ele se diz colecionador delas; se compara àqueles aficcionados por dinheiro, que sentem prazer em manipular moedinhas, com a diferença de que palavras são mais sólidas que metal) Amos Oz defende a formação de um estado palestino-israelense. Seria um divórcio doloroso, segundo ele, como se ex-marido e ex-mulher ainda tivessem que dividir o mesmo apartamento, sendo que nele só havia um banheiro e um cozinha. Mas seria a única solução justa e definitiva para a região.
Depois, Anselm Kiefer na Gagosian Gallery. O alemão já havia chamado minha atenção com suas telas gigantes nos Museus da Filadélfia e de Cleveland. Agora se revelou ainda mais cinza, ainda mais doloroso, em instalações. Se é para se divertir, corra para a exposição de John Baldessari, no Metropolitan. Passe longe daqui. Kiefer é duro, seco, como a guerra de Oz. Não é possível sair de lá sem o coração machucado. O casamento, a relação com os pais, a primeira casa, tudo é destruído pelo isolamento, pela intolerância. Kiefer transforma em gesso moído qualquer argumento de que a guerra é necessária. Dialoga com Oz no desespero, no medo da burrice.
E quando o meu dia parecia cheio de descobertas e devastado por tristezas surge, linda, com seu sorriso quebrado, Joan Baez. O documentário lançado ano passado é um primor. Consegue transmitir a nós, da geração que só a viu de cabelos curtos e grisalhos, o que aquela mulher fez pelo outro. "Prefiro que não me classifiquem como nada. mas se quiserem classificar, que seja, primeiro, como ser humano. Depois, pacifista. E só se precisarem, ainda, de um terceiro rótulo, só aí, podem dizer que sou cantora de folk", diz Baez. O amor por Bob Dylan desaparece perto da amizade com Martin Luther King (aliás, o que não desaparece perto de um discurso de Luther King?). As fofocas, o estilo, a beleza, apesar de intensos, ficam diminutos perto da ativista que segue de peito aberto para o Chile, Sarajevo, Mississippi, Vietnã. Para qualquer lugar onde ela possa mudar alguma coisa.
Cenários de guerra e paz se misturaram nesta terça-feira pré-Brasil.

Monday, November 22, 2010

Versos Satíricos


Salman Rushdie é dos caras mais engraçados que já vi. Hoje, numa longa leitura na 92Y (mais uma surpresa típica de Nova York, que, depois de tanto tempo aqui eu ainda não conhecia), ele fez graça com tudo. A lei de imigração do Arizona, por exemplo, serviu de gancho para o autor de Versos Satânicos dizer que o Kansas era a prova de que Darwin estava errado, porque a espécie humana nunca poderia evoluir para aquilo.
Confessou que leu, a duras penas, os sete livros de J.K Rowling (que chamou de Tio Patinhas) para agradar o filho mais novo. Sabia tudo sobre todos os personagens de Harry Potter, confessou que acompanhava cada lançamento da indústria de videogames, falou sobre os hábitos de leitura das mais distintas regiões da Índia. Foi uma aula, boa para nos lembrar como é parte obrigatória para a gente se sentir vivendo passar um tempo, algumas horinhas que sejam, ao lado de pessoas inteligentes.
Nos últimos meses, no isolamento da estrada, me sentia emburrecendo. O conceito de casa foi se esvaindo e eu já começara a acreditar que um chuveiro e uma cama confortável bastavam para que eu me sentisse em uma. Nada disso.
Nova York me lembrou que casa é um lugar de onde você não quer sair, mas que te leva para ver o mundo. É aquele cantinho onde você pode se recolher e se sentir crescendo, ao mesmo tempo. Casa é o lugar que te faz querer ter filhos, pôr mais cobetura de chocolate no bolo, borrifar essência de lavanda pelo quarto. Casa, aliás, tem cheiro de lavanda.
Sobre Luka and the fire of life, o novo livro de Rushdie, pouco posso dizer, pois ainda não o li. Ouvi apenas curtos trechos, lidos pelo autor, que falavam de uma bela relação entre pai e filho. Talvez por isso ele tenha me levado a pensar sobre a importância de ter um lugar no mundo, de pertencer a algo. Hoje, sou completamente da minha casa, do meu bairro, da minha cidade. Amanhã posso ser de logo ali. Mas por enquanto, ainda tenho muitas coisas para descobrir aqui. E como é boa essa sensação.