Tuesday, May 25, 2010

Dia 117 (25/05) - Mesa da vovó


Comer, nos Estados Unidos, não é das atividades mais deliciosas. Além de exibirem um cardápio, digamos, não muito diverso, eles levam a sério essa história de fast food. É o espírito do capitalismo, que não permite uma conversa mais comprida na mesa. Para se ter uma idéia, na maioria dos restaurantes, quando chega para oferecer a sobremesa, o garçom já traz a conta no bolso e, se a resposta for não, joga a melindrosa na mesa. Aquela coisa de passar a tarde no botequim, tão nossa, por aqui não existe. Hoje, no entanto, tive uma experiência única aqui em Nashville. Chegamos à cidade à tarde e, seguindo o guia, fomos ao restaurate Monell's, com a promessa de experimentar "uma nova tradição do sul". Era mesmo uma coisa completamente nova. Apresentando-nos a "family style", que para mim significava PF bem temperado, o garçom nos sentou na cabeceira de uma mesa comprida. Na outra ponta, uma americano gorducho se deliciava. Daí o garçom foi tirando as vasilhas do lado dele e colocando para a gente. O tal estilo família, nada mais é que o almoço de domingo na casa da vovó Penha. Uma mesa grande, bagunçada, cheia de gente falando alto e compartilhando os pratos. Uma maravilha! Aqui, você paga um preço fixo (que para mim, vegetariana, foram módicos USD 9,00) e come o que quiser. Tinha pudim de milho, galinha frita, salada de brocólis, de pepino, de ervilhas com bacon, carne assada, couve refogada, purê de batata. Incrível como uma mesa bem posta nos remete aos melhores momentos da nossa vida. Parecia que ali eu estava matando as saudades do mingau de aveia da Vovó Bininha, abraçando minha irmã, ganhando coceguinhas do tio Fernando. Ah, se os americanos soubessem!

Dia 116 (24/05) - Beale Boy King e um rei brasileiro


Hoje saímos para fazer imagens da cidade antes de gravar e resolvemos almoçar no BB King's Blue Club, na Beale Street. Não é que uma brasileira veio nos atender? Primeiro fizemos o pedido em inglês. Depois, ouvindo a gente conversar em português, Tamy perguntou de onde a gente era. Nos encantamos à primeira vista com a história de luta dessa imigrante. Aos 24 anos, ela já rodou boa parte do país trabalhando numa churrascaria. Casou-se, teve dois filhos, se separou e voltou a morar em Memphis para dar uma vida mais sossegada aos filhos. Claro que ela também aproveita. Adora trabalhar ali, conhece os melhores bares, aprendeu tudo sobre blues. Um achado. Passamos no Sun Studios, onde Elvis, Roy Orbinson, Johny Cash e muitos outros gravaram seus primeiros ábuns (na foto aí do lado, eu canto no mesmo microfone que Th King of The Rock cantava na foto atrás). De lá, ainda fomos gravar no St Judes Hospital, onde um médico brasileiro faz um trabalho lindo. Quando chegou aqui, 24 anos atrás, Dr. Raul conta que o índice de cura de crianças com câncer no Brasil era zero. Aqui, poucas se salvavam. Hoje, 94% dos casos de leucemia são curados. Orgulhoso dos resultados, ele trabalha mais. Visita países, tentando implementar o mesmo projeto. Entre eles, o Brasil, onde, no Recife, funciona um centro de referência no tratamento pediátrico da doença. Um rei, um salva-vidas, um orgulho.


Dia 115 (23/05) - The real King


Mais uma oportunidade de conhecer a história dos Estados Unidos nos foi dada hoje, no Civil Rights Museum, em Memphis. O lugar poderia ser simplesmente assustador, dar arrepios, pois foi ali que Martin Luther King foi assassinado em 1968. O hotel Lorraine poderia ser uma espécie de Sixth Floor Museus, em Dallas, onde senti um misto de calafrios e dor de barriga. Lá, em vez de contar apenas a história de vida de Dr King, a gente passeia pela bela, ainda que sofrida, luta dos negros americanos em busca de igualdade de direitos. Podemos entrar numa réplica do ônibus em que Rosa Parks decidiu não se levantar, para mudar o mundo. Vemos um bar os se faziam os seat-ins. E, sobretudo, temos uma aula de história americana. Talvez o meu maior "sacode" tenha sido justamente perceber que os americanos podem ser pessoas lindas, inteligentes, que levam, sim, a liberdade e a justiça como bandeiras. Claro, estavam lá os red necks, a KKK, e tantos movimentos que nos causam repúdio e nos fazem questionar a verdadeira essência do ser humano. Mas também estão lá heróis, anônimos ou não, que acreditavam nas pessoas, na vida, num sonho. Quando se mata um sonhador, não se mata necessariamente o sonho, dizia um deles. Daqui, continuamos com muitos sonhos e algumas realizações, mas seguros de que às vezes, uma pessoa pode mudar o destino do mundo todo.

Dia 114 (22/05) - Clarksdale


Em Clarksdale o blues foi criado. Ali, na região do Delta do Mississippi, bluseiro que se preze ou nasceu ou passou boa parte da vida. John Lee Hoocker, W.C Handy, BB King, Ike Turner, entre eles. O ator Morgan Freeman também é daqui e hoje tem dois restaurantes bacanas à beça na cidade. O Mardidi, mais arrumado, é ótima pedida para o jantar. O Ground Zero tem shows de blues, comida boa e um estilo largado com charme. Estar aqui me levou de volta às rodas de violão em Vitória, em que o Chico e o Antonio, ainda achando que mudariam o mundo, cantavam "Vampiro Doidão" como se fosse uma grande música. Estavam todos ali. Os meus amigos, mas também Muddy Waters, o maior orgulho da cidade. E o mais curioso: ontem, em Memphis, vimos um show bacana na Lewitt Shell, mas não conseguimos entender o nome do cara. Parecia algo como "Super Chicken", nome estranho demais para eu confiar apenas na minha compreensão da língua inglesa. Mas era isso mesmo, exceto pelo fato de que a grafia é Chikan, pra ficar mais chique. Pois não é que o cara é um mito entre os apreciadores de blues e estava na parede do Museu? Mais que isso: um americano almofadinha, blusa pra dentro da bermuda e mocassim, nos puxou num canto do museu e convidou: "venham comigo e finjam que são meus convidados". Chico, desconfiado, quase não foi. Eu segui. De repente estávamos numa salinha, com outras dez pessoas, num show privé do tal Super Chicken dentro do Museu. Um luxo! Mas a maior surpresa do dia foi mesmo Clarksdale. Eu imaginava uma cidade relativamente desenvolvida, grande. Que nada! O lugar parece mesmo ter saído de uma canção do Robert Johnson (aliás, fica ali a encruzilhada em que ele teria feito um pacto com o diabo); em cada esquina parece que uma guitarra chora com uma faca sendo usada no lugar do slide. Dá vontade de andar de sapato bicolor por aquelas calçadas por onde tantos gênios passaram. Da vontade de ouvir Blues Before Sunshine.

Saturday, May 22, 2010

Dia 113 (21/05) - The king is alive


Depois de uma manhã cheia de coisas a resolver, do supermercado, à tosa do Pinduca, passando pelo Fedex e o banco, finalmente fomos conhecer Graceland, a casa de Elvis Presley. Tivemos a companhia de Jane e Eddie. Ela, médica, brasileira. Ele, músico, do Tennessee. Conhecer a cidade pelos olhos de moradores é mesmo outra coisa. Eddie sabia tudo sobre Elvis e tudo sobre Graceland. Mas o mais bonito ele não descobriu em livros. Veio do coração dele a certeza de que, tantos anos depois (Elvis faria 75 anos em 2010, mas morreu com apenas 42) 600 mil pessoas vão visitar o lugar todos os anos porque Elvis é o resumo do sonho americano. Para o bem e para o mal. Ele explica: é simbólico, um orgulho viver num país onde alguém pobre como ele possa construir um império com base apena no próprio talento e em trabalho. Por outro lado, o tal sonho é nocivo na medida em que oferece ao seu dono um mundo de fantasia, onde não se sabe quem é quem, nem aonde se pode chegar.Foi especial ver aquelas salas dos anos 60, somadas ao jeito Elvis de ser, e entender que aquilo tudo é parte da formação desse povo. Elvis continua levando turistas para a cidade que tanto amou, enche os cofres americanos mesmo depois da morte. Fez da sua casa a segunda mais visitada dos Estados Unidos (perde apenas para a Casa Branca), apesar de ter buscado a vida inteira um minuto de sossego, Apenas o segundo andar é fechado ao público. Era o refúgio de Elvis, o único lugar em que ele se sentia Presley.

Para deixar registrado, fomos jantar no Rendez-Vous, lugar indicado em todos os guias, pelas famosas costelas. É muito bacana. Comi feijão com arroz, no capricho e Chico se deliciou com as ribs. Vale a pena!

Dia112 (20/05) - Rock n'Soul


A chegada a Memphis já havia sido promissora. Ontem à noite fomos à Beale Street, só mesmo porque o guia indicava. O lugar é como uma mini Bourbon, mas mais charmosa, mais elegante, se é que você me entende. Não tem aquela turma louca, andando com bebidas gigantes e coloridas nas mãos. É uma coisa mais blues. Pois hoje descobrimos a história da Beale e ela se tornou muito mais bacana. Aliás, Memphis foi um maravilhosa surpresa. No Museu Rock n'Soul, além de ouvir seis horas de música, o vistante tem lições sobre o surgimento desses ritmos. Elvis, Roy Orbinson, BB King,estão todos lá. Também estão ídolos locais que eu desconhecia, como Rufus e Carla Thomas. Oties Redding eu só conhecia pela história trágica e a voz marcante, mas hoje deu para descobrir muito mais. A região do sul do Tennessee, perto da fronteira com o Mississippi, sentiu comopoucas a tensão racial. Basta dizer que foi aqui, em 1968, que morreu Martin Luther King, assassinado no bar do hotel em que estava hospedado, logo depois de pedir que o saxofonista tocasse seu hino favorito. King estava na cidade para apoiar a greve de funcionários da limpeza urbana. Hoje o hotel virou o Museu dos Direito Civis. Fechamos a noite num bar super bacana, o Flying Saucer, que tem cervejas para todos os gostos. E fui dormir sonhando com o que Memphis me apresentaria no dia seguinte. Como é bom se apaixonar!

Dia 111 (19/05) - Judas perdeu as botas no Brazil!


A caminho de Memphis, depois de uma noite iluminada ao lado de Ryan, Lindy e família, resolvemos parar em Brazil. Isso mesmo. Existe uma Brazil no meio do Mississippi. Claro que o Ryan mandou um email para nos ajudar a achar o caminho e eu já havia olhando as instruções na internet. Até que chegamos a um lugar no meio do nada e vimos a placa. Pronto! agora vamos achar Brazil. Seguimos por quilômetros em ver uma casa com sinal de vida, um morador, nada. Até que o simpático Andrew aparece pilotando um trator. Verde e amarelo, acreditem. Paramos o motorhome ali mesmo e eu fui perguntar se ele sabia onde ficava Brazil. "This is Brazil!" Pois bem Brazil é duas curvas depois de onde o vento fez a curva, um pouco depois da casa do chapéu. Um lugar abandonado, onde vimos casas destruídas e uma queimada. Como a foto mostra, no entanto, Brazil tem um lugar para votação. Os moradores, onde quer que eles estejam, podem escolher candidatos e, se bobear, lá tem até prefeito. Andrew disse que é assim mesmo, não tem nada, e soltou uma gargalhada quando eu perguntei se tinha restaurante. Nunca na minha vida eu quis tanto ir embora do Brazil.